Viradouro: de Niterói pra Sapucaí

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Fundada no dia de São João Batista de 1946 por Nelson dos Santos, conhecido como Jangada nas rodas de samba do bairro de Santa Rosa, a Viradouro desde os seus primeiros anos mostrava ser uma grande força carnavalesca na cidade de Niterói. Por ser fundada em 24 de junho (dia do padroeiro da cidade de Niterói), esse mesmo santo foi escolhido como padroeiro também da escola. Perto do local de fundação existia também o monumento a Nossa Senhora Auxiliadora e sua proximidade com os moradores da região fez com que ela também fosse escolhida como padroeira da agremiação. Inclusive foi do manto (azul) e de suas vestes (rosa) que foram escolhidas as cores oficiais da Viradouro: azul e rosa.

Nos seus primeiros carnavais disputados a Viradouro teve a escola de samba Combinado do Amor como a grande adversária na concorrência dos títulos. Ainda assim a azul e rosa de Santa Rosa conquistou 10 títulos em 12 disputados. Toda essa supremacia fez a Viradouro se aventurar na cidade do Rio de Janeiro, palco dos mais disputados desfiles do mundo. Em 1964 e 1965, desfilando na Cidade Maravilhosa, a agremiação niteroiense alcançou apenas um 26º lugar entre as grandes escolas, decidindo voltar ao carnaval de Niterói no ano seguinte.

Voltando às disputas em Niterói, a Viradouro encontraria aquela que seria a sua grande adversária na disputa pelos títulos: a Acadêmicos do Cubango. Nos primeiros anos em que as duas concorreram ao mesmo título, a Cubango sempre levou a melhor. Até que nos preparativos para o carnaval de 1971 algo inusitado aconteceu. A Viradouro conseguia a grande parte dos tecidos para os seus desfiles através da fábrica Matarazzo de São Paulo que os produzia nos tons de rosa que a Viradouro costumava usar. Com o fechamento da fábrica, os dirigentes da escola tiveram muitas dificuldades em encontrar tecidos que correspondessem às cores da agremiação. Era uma época em que as escolas desfilavam com as cores de sua bandeira sendo representadas fielmente nas suas fantasias e alegorias. No decorrer do ano de 1970 foi aprovada a mudança de cores da escola, passando de azul e rosa para o vermelho e branco que conhecemos hoje. Já no seu primeiro desfile com as novas cores (1971) a Viradouro chegou novamente ao título depois de alguns anos vendo a Cubango se sair melhor nas disputas. A Viradouro ainda conseguiria mais 7 títulos após 1971, incluindo aí um pentacampeonato ocorrido de 1980 à 1984.

Em 1986, depois de se manter no topo do carnaval de Niterói por muitos anos, a Viradouro decide disputar novamente o carnaval da cidade do Rio de Janeiro e chega ao grupo de avaliação, sendo aprovada e autorizada a concorrer com as demais escolas da AESCRJ (Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro) após apresentar o enredo: “Novos ventos, novos tempos – História de uma integração”.

Em 1987 a Viradouro finalmente disputando com as escolas já consolidadas no Rio obteve um modesto 5º lugar no quarto grupo. Já em 1988 a escola conseguiu o vice-campeonato exaltando as contribuições do negro ao folclore brasileiro. No mesmo ano chega à escola José Carlos Monassa, o homem que teve determinante papel na mudança da agremiação. Já em 1989 veio o primeiro título na cidade, o do terceiro grupo do carnaval carioca com o enredo: “Mercadores e Mascates”, ganhando o direito de se apresentar na Marquês de Sapucaí no ano seguinte e pleitear uma vaga no concorrido Grupo Especial.

Para o desfile de 1990 chega à Viradouro o carnavalesco Max Lopes, que acabara de ser campeão pela Imperatriz Leopoldinense em 1989. Já disputando o Grupo 2 do carnaval carioca, numa ascensão impressionante, a até então pouco conhecida agremiação de Niterói, cercada de expectativas contou em seu inusitado enredo a história da escrita e a sua importância na comprovação de acordos e de documentos essenciais na vida do ser humano. Com um desfile pautado pelo luxo e bom gosto, marca de Max Lopes, a Viradouro conquistou o primeiro lugar no Grupo 2 de 1990, ganhando o direito de desfilar entre as mais famosas escolas de samba no carnaval de 1991.

Com o belo desfile apresentado em 1990, a Viradouro estrearia no Grupo Especial no ano seguinte. Além de se manter no grupo, o objetivo da escola era de ficar bem classificada entre as grandes escolas. Para tanto, Max Lopes confirmou a sua permanência na escola de Niterói e anunciou o novo enredo poucas semanas depois do desfile: uma homenagem à vida e carreira da atriz e comediante Dercy Gonçalves. “Bravíssimo! Dercy o retrato de um povo” foi o título escolhido por Max que justificou: “Bravíssimo é o aplauso máximo do teatro. Dercy há muito merecia ser lembrada por uma escola de samba. Esta mulher veio ao mundo para alegrar o povo. Apesar das inúmeras crises e problemas que o Brasil já passou, ela foi uma das poucas pessoas que conseguiram fazer a gente rir.” Disse o carnavalesco prometendo um desfile com muito humor e alegria, características marcantes da atriz.

A atriz, com 82 anos na época, surpreendida pela notícia da escola chegou a dizer num primeiro momento: “Pra quê que eu quero homenagem?”. Irreverente como só ela sabia ser, se acostumou com a ideia rapidamente e se prontificou a colaborar com o desenvolvimento do desfile.

No meio do ano de 1990 a agremiação de Niterói ainda sofreu um duro golpe nos preparativos para o desfile: um incêndio no Pavilhão de São Cristóvão destruiu, entre outros, o barracão da Viradouro, impedindo que qualquer coisa fosse reaproveitada do ano anterior. Tudo deveria começar do zero. E para tocar os trabalhos no barracão Max contava com seus assistentes Mauro Quintaes e Lucas que junto dos demais funcionários trabalharam arduamente para vencer os desafios e pôr o carnaval da escola na rua. Ainda no campo de estrutura, a quadra da escola foi reformada para receber shows e angariar ainda mais fundos para o desfile.

Em 31 de julho daquele ano, o enredo foi lançado oficialmente no Teatro Rival, onde Dercy exercia uma grande temporada de apresentações em uma grande festa organizada para a imprensa pelo destaque da escola Sivuca Malta.

Em setembro foi iniciada a disputa com 10 sambas. Entre os concorrentes estava um samba de David Correa, notório compositor portelense com sambas também no Salgueiro e em Vila Isabel. No final da disputa venceu o samba composto por Adir, Odir Sereno, Gelson e Rubinho. Àquela altura a Viradouro já contava com uma grande popularidade e expectativa graças ao festejado enredo. Até mesmo uma agência de publicidade foi contratada para veicular a imagem da escola.

A classe artística obviamente apoiou o enredo escolhido e vários artistas famosos da época confirmaram presença no desfile, tais como Mariane Ebert, Anilza Leoni, Lady Francisco e Fernando Reski. Além deles, o famoso palhaço Carequinha também prometeu estar presente no último carro da escola que representaria um circo.

Em janeiro de 1991 a Viradouro participou do ensaio técnico no sambódromo onde foi avaliado, sobretudo o tempo de desfile que seria necessário para cruzar a avenida. Vale lembrar que pelos atrasos nos desfiles de 1990, a LIESA decidiu diminuir o tempo de desfile e ser implacável com o horário estabelecido para o início das apresentações (18 horas). Quase todas as alas participaram do ensaio e mostraram tudo o que poderiam fazer no dia oficial, gerando ótimas impressões de quem assistiu.

Algumas semanas antes do desfile mais um momento de apreensão tomou conta da Viradouro: Dercy sofreu um acidente de carro onde sofreu uma fissura na bacia. Ainda assim a grande homenageada estava decidida a desfilar “nem que fosse em uma maca”, segundo a própria. A atriz ainda prometeu uma incrível ousadia no desfile, dizendo que iria com os seios à mostra.

Toda a dedicação do presidente José Carlos Monassa aliada à criatividade de Max Lopes  e todo o apoio da cidade de Niterói à Viradouro fizeram com que a escola chegasse no dia do desfile com todas as condições de realizar uma belíssima e inesquecível apresentação.

Uma insistente chuva caía sobre o sambódromo no final da tarde de 11 de fevereiro de 1991. Um pouco antes das 18 horas uma Dercy Gonçalves disfarçando o medo de altura com o seu habitual bom humor era posta pelo guindaste no alto do belo carro abre-alas da Viradouro ao lado do ator Luiz Carlos Braga, com quem contracenou por décadas nos palcos do Brasil. Como a primeira escola a desfilar naquela segunda-feira de carnaval e com um público ainda tímido, os 3800 componentes da Viradouro iniciaram a apresentação da escola debutante no Grupo Especial.

A comissão de frente em belos trajes vermelhos e brancos e com enormes esplendores representando o teatro, saudou o público e apresentou a escola de forma correta perante aos jurados. O mesmo teatro onde Dercy conquistou a fama agora abria passagem para a sua grande dama ser homenageada.

Logo em seguida veio o carro abre-alas todo em branco com tons rosa ladeado por enormes cisnes e belas mulheres. No alto da enorme escadaria deste carro estava Dercy sendo saudada pelo público e retribuindo, mandando beijos e acenos para a plateia. Como prometido, a atriz desfilou com os seios a mostra, numa ousadia que se tornaria uma das imagens marcantes do carnaval de 1991. Contrariando as recomendações médicas, Dercy passou quase todo o tempo em pé no carro, recebendo todo o carinho e os aplausos do público. Ainda faziam parte da alegoria a filha de Dercy, Decimar e mais alguns parentes da comediante.

Após o abre-alas desfilaram a ala de baianas muito bem vestidas com as fantasias em tons de prata, branco, vermelho e rosa, representando o carnaval num dos grandes momentos do desfile. Sucedendo a ala de baianas vinha o carro que encerrava a primeira parte do desfile, que fazia a saudação ao teatro e ao carnaval. Uma linda alegoria trazendo a coroa da Viradouro com Clóvis Bornay na frente trajando uma belíssima fantasia vermelha que também simbolizava o carnaval.

A partir daí a história de Dolores seria contada linearmente, se iniciando com a sua partida da pequena cidade de Santa Maria Madalena, no interior do estado do Rio. A alegoria que simbolizou esse momento era a da estação de trem da cidade onde todos as composições usavam fantasias referentes à época da partida de Dercy. O próximo quadro do desfile mostrou o cabaré “Casa de Caboclo”. Todo em tons de palha, branco e preto, o setor representava o local onde Dercy despontou como atriz.

Em seguida se apresentou o casal de mestre-sala e porta-bandeira Robson e Ana Paula em uma bonita com motivos carnavalescos nas cores da escola. O chão ainda molhado da avenida não permitiu uma evolução melhor do casal. Acompanhados deles, vieram seis casais de mestre-sala e porta-bandeira mirins, com fantasias semelhantes ao do casal principal. Atrás dos casais veio a bateria de mestre Ricardo também com fantasias que remetiam ao carnaval, assim como a ala de passistas da escola. Quinzinho e o time de intérpretes da Viradouro conduziram de forma magnífica o belo samba, bastante elogiado no pré-carnaval de 1991.

O setor seguinte, talvez fosse o mais belo do desfile, onde foi abordada a época em que Dercy brilhou no Teatro de Revista de Walter Pinto. Com lindas fantasias brancas e com o carro da escadaria do teatro o cenário composto se mostrou como outro grande momento plástico do desfile. A seguir, alas mostrando naipes de baralho e referências a jogos de sorte retrataram a fase em que Dercy se apresentou no Cassino da Urca. Este setor foi encerrado com o carro da roleta, também criativo. Neste momento a escola começa a apressar um pouco o passo.

A carreira de Dercy no cinema foi mostrada na parte seguinte do desfile. Vendedoras de bala e lanterninhas antecederam a bem resolvida alegoria das chanchadas. As cores predominantes neste setor foram o preto e o branco, remetendo ao estilo de filmagem usado na época. As passagens de Dercy pela televisão também foram lembradas com um setor representando uma corte real, em alusão à novela “Que rei sou eu”, onde a homenageada foi um dos grandes destaques.

O grande sucesso musical de Dercy “A perereca da vizinha” foi mostrado mais adiante com a divertida ala das crianças onde tinham várias pererecas. Por tamanho destaque, a ala foi premiada merecidamente com o cobiçado Estandarte de Ouro. Esta parte do desfile ainda contava com uma irreverente alegoria onde se via uma simpática perereca presa em uma gaiola. Encerrando o desfile, o setor do circo mostrava um dos grandes desejos de Dercy que era ter um circo. Palhaços, bufões, carruagens com animais, trapezistas e equilibristas precederam a bela alegoria do circo, que trouxe o histórico palhaço Carequinha, em mais um momento de entusiasmo na avenida. Após a alegoria, a velha guarda da Viradouro em elegantes trajes nas cores da escola encerrava o grande desfile da escola de Niterói.

Dercy radiante de alegria recebia as felicitações dos foliões na Praça da Apoteose, onde ficou para acompanhar o desfile. Realmente, como havia sido idealizado, o “Bravo! Bravíssimo!” foi ofertado de forma excepcional à esta grande dama do teatro brasileiro. Muito elogiado pela crítica carnavalesca, a apresentação da Viradouro foi colocada como uma das favoritas às primeiras colocações, em detrimento de outras escolas já tradicionais no Grupo Especial, mostrando que a Viradouro veio para ficar e fazer bonito entre as grandes escolas do carnaval carioca.

(por Renato Moço – Carnaval Interativo | Bravo Bravíssimo! Dercy Gonçalves, o Retrato de um Povo)
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